Valéry, Toynnbee e Spengler esfregariam as mãos de contentamento se lhes fosse oferecida a possibilidade de assistirem, em directo, à morte de uma civilização. Nós somos os felizardos. Porém, o diagnóstico que fazemos toma o estertor por revivescência, a agonia por manifestação de força. O Islão está a morrer. O desespero, o ódio febril que o convulsiona, a exibição gratuita de violência são indícios claros de queda iminente. Um mundo fechado, totalitário e cego, centrado numa só tecnologia – a religião – incapaz de raciocinar fora do quadro da autoridade tradicional, incapaz de relativizar, incapaz de dialogar e indisponível para aceitar a Filosofia, a Ciência e a arte; eis a sintomatologia que oferece o Crescente. De facto, a morte anunciada do doente não é recente: data do século XII, com o clamoroso fracasso do Averróis, grande comentador de Aristóteles e, sem dúvida, um dos maiores expoentes do pensamento medieval. O averroísmo propunha, como sabem, a teoria das duas verdades – teológica ou da fé e a filosófica ou da razão – por cuja realização o Ocidente saberia encontrar as vias para a libertação do espírito; logo, a emergência do pensamento científico e autonomia da razão face à religião e aos textos sagrados. A civilização islâmica é, hoje, refém de uma atitude que chamaria de esquizofrénica. Por um lado, quer aprofundar o seu autismo, que toma por integrismo. Por outro, exibe um patético fascínio pela tecnologia ocidental, desconhecendo ou querendo escamotear a ciência moderna, que colide ou mesmo destrói todas as certezas teológicas em que se fundamenta. É, em suma, a típica atitude do bárbaro utilitário que sabe manipular o macro (o telescópio) e o micro (o átomo), cingindo-se à imediatez* do dado laboratorial. Por mais que a única tecnologia – religião – e a verdade única – o Corão – se queiram apossar da ciência e da tecnologia, estas acabarão por desautorizar o Livro e desagregar a comunidade dos crentes. Tomo como evidente a impossibilidade de se ser livre e render tributo a qualquer tipo de autoridade não sujeita ao tribunal da razão. Ora, o Islão – que levou até às últimas consequências a servidão da Filosofia face à religião – parece atrair sobretudo os espíritos carentes. Veja-se como os conversos europeus e norte-americanos são, precisamente, aqueles que em tempos ainda próximos procuraram na autoridade apodítica dos textos e Marx o conforto de um sistema fechado, absoluto e inquestionável, a começar por Roger Garaudy.
Tenho conhecido e convivido com muitos muçulmanos, alguns até dotados de sólida cultura ocidental. Há neles, porém, qualquer coisa de contraditório. Quando pensam como nós, veêm-se compelidos a abjurar inconscientemente o Islão. Como se sentirão um físico nuclear iraniano, um geneticista egípcio, um embriologista sírio, um químico saudita, um professor de Filosofia tunisino depois de terminar um dia de trabalho ? O que haverá naqueles espíritos quando regressam a casa e defrontando-se com uma sociedade ancorada, fechada, imóvel e ritualista ? Bin Laden era um jovem plenamente realizado, inteligente e respeitado. Terá, sem dúvida, vivido com intensa dor a contradição do Islão e compreendido a morte anunciada da sua civilização. A recusa do mundo moderno, a que consagrou a sua vida, ao invés de manifestar força, é epítome radical de fraqueza, de medo e despeito pelo Ocidente.
*Imediatez: aqui usada no sentido que Hegel lhe deu, isto é, de ingenuidade e estado primitivo de consciência.